nav-left cat-right
cat-right

Nely Cyrino de Mello

De repente, naquela esquina. Nelly Cyrino de Mello Já se vai longe aquele tempo, mas se não me falha a memória, a relojoaria ficava numa ruazinha entre o Largo do Paissandu e a Praça do Correio, lá pelos lados do Viaduto Santa Ifigênia. O homenzinho, atrás do balcão, observava os movimentos do meu “quase” noivo e sorvia satisfeito minha expressão de felicidade. - Não precisa escolher mais, meu rapaz, ela gostou da facetada. Eu girava a aliança no dedo, encantada com os reflexos das arestas, como se fora um prisma decompondo a luz. Lembrei-me do meu primeiro anelzinho de rubi que refletia as luzes da capela, durante a missa, no colégio. - Quero esta. É linda! Nomes gravados, pagamento feito, pacotinho no bolso, subimos a Avenida São João. Que tal um cineminha? Tem Marrocos, o Olido, o Rivoli, mais adiante o Metro… Caminhamos felizes, viramos à esquerda e lá estavam majestosos, frente a frente, o Marabá e o Ipiranga. As lojas já começavam a cerrar suas portas, mas naqueles tempos ainda se podia passear tranqüilamente por aquelas bandas. Como era bonita a galeria Califórnia, na Barão de Itapetininga, onde as madames compravam suas peles, desfilando luvas e bolsas combinando com os sapatos! Desistimos do cinema e caminhamos até o Mappin, admirando a arquitetura imponente do Teatro Municipal. Na volta, passeamos pela Praça da República, observando as crianças com suas pipocas e algodões-doces. Então bateu aquela fome e resolvemos comemorar com um jantarzinho. - Tudo bem, mas lembre-se de que o portão é fechado às 9 horas em ponto. Eu morava num pensionato de freiras, na Rua Gravataí, estudava no Sedes Sapientiae e trabalhava no Des Oiseaux, que enfeitava a acanhada Caio Prado, esta de cotovelo com a então famosa Maria Antônia. Que delícia passear pela Augusta com seu Simbad, o Marachá, o Picolino e o Majestic. E quantas vezes atravessei correndo a Praça Roosevelt para tomar o bonde que descia barulhento a Rua da Consolação; ia até a Praça Ramos de Azevedo e de lá, a pé, até a 25 de Março, fazer compras para o enxoval, na Casa Moysés. Outras vezes andava até a Biblioteca Municipal, para assistir às palestras de meu professor de filosofia, Ignácio da Silva Telles, que começavam às 8 da noite. Bem, jantamos num local aconchegante, duas quadras abaixo daquela famosa esquina que fez a coisa acontecer no coração de Caetano; Ipiranga com São João. Estávamos radiantes com o noivado próximo e não resistimos à tentação de experimentar de novo as alianças. Foi então que olhei para o relógio da parede; passava das 8h30. Dispensamos a sobremesa, pagamos a conta e, pernas-para-que-as-quero! De repente, ali, naquela mesma esquina, São Pedro abriu as comportas do céu e despejou tremendo dilúvio. Abriguei-me sob a primeira marquise, ele sumiu e reapareceu com um jornal. Mas qual o quê; antes de chegarmos à Caetano de Campos, já estávamos encharcados, o jornal, os cabelos, as roupas e os ossos. Atravessamos feito loucos a Avenida São Luís e para completar a tragédia, a tira da minha sandália arrebentou, e lá ficou a dita cuja, bem no meio da rua, embaixo dos carros. Ele voltou para buscá-la e chegamos quase sem fôlego à Igreja da Consolação, faltando três minutos para as nove. - E se o portão já estiver fechado? - Você vai comigo para o hotel. - Deus me livre! Vamos correr mais. A Madre Superiora já descia as escadas balançando o chaveiro e abanando seu chapéu de três pontas chamado de coifa. - Que horror! Por onde você andou? Quase ficou para fora. Responder o quê? Apenas respirei aliviada. Já se vai longe aquele tempo em que a gente casava virgem.