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REFLEXÕES SOBRE A EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA

REFLEXÕES SOBRE A EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA

QUANTIDADE E QUALIDADE – DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO – Quantidade e qualidade não são fatores mutuamente excludentes. Da quantidade se extrai qualidade. A questão da proporcionalidade é direta. Efetivamente temos mais gente bem formada, mas também temos muita gente mal formada. Me parece que a questão fica melhor esclarecida quando as pessoas definem por antecipação que tipo de escola ou de formação elas desejam. Não tenho dúvida de que ingressamos na “era dos diplomados”, quero dizer, todos terão diploma em alguma área do saber, de alguma coisa. O diploma, documento importante na sociedade não é tudo, é passaporte. As pessoas precisam avaliar o que levam junto, isto é conhecimento elaborado, nível de domínio, competências adquiridas. Resumindo essa questão: tem escolas não conhecidas formando gente boa, tem escolas bem conceituadas formando gente ruim.

 

FORMAÇÃO DE PROFESSORES – Uma verdadeira tragédia, cujas conseqüências já podemos vislumbrar, e estamos apenas o descortinando um cenário que só vai se agravar. Não tem nenhum incentivo social ou econômico para que as pessoas talentosas busquem e exerçam a docência como carreira. Lamento dizer, mas já temos pesquisas mostrando que com raras exceções – destaque-se que elas existem e são honrosas, verdadeiros abnegados – são os priores alunos de todos os cursos que buscam a licenciatura. Essencialmente Pedagogia, hoje se faz por EAD. Trabalho em projetos de EAD, mas é preciso alguns cuidados, não é remédio para todos os males. Veja o exemplo do ENEM, começou com um alto nível, buscando, por exemplo, qualidade de expressão através da redação, capacidade de interpretação, compreensão e raciocínio. Como o nível era muito elevado para os padrões de ensino, qual foi o remédio aplicado? O nivelamento por baixo do exame, em vez de se melhorar a qualidade do ensino.

 

COMO SE ESCOLHE SER PROFESSOR – As pessoas precisam se conhecer melhor (auto conhecimento) e daí estudar, pesquisar o que é a profissão de professor (que aliás, ambas as expressões tem o mesmo radical que quer dizer “professar a fé naquilo que faz”). Uma análise minuciosa, daquilo que gera satisfação, bem estar, enfim, isso que se chama hoje “felicidade”. Quando perguntamos, _ Por que você deseja exercer a docência?”, frequentemente obtemos como resposta: “Porque adoro ensinar!”. Existe também um pensamento mal formulado: “Porque é fácil é so chegar lá e falar e eles escutam e aprendem”; “Porque tem duas férias por ano”… e outras desconformidades. Não quero menosprezar essa euforia do “Porque adoro ensinar”, avalio até que ela tem que ser capitalizada no processo, mas “ensinar o quê?”. Profissão é uma coisa séria, você conviverá com ela o resto de sua vida, embora tenha se preparado durante a melhor parte da vida, para ela. Na docência você influencia para o bem ou para o mal, duas, três gerações. Quem de nós não carrega uma triste lembrança de um professor que nos magoou? Ainda bem que a maioria de nós carrega pela vida o exemplo dos melhores, que fizeram diferença em nossas vidas. Lembro que você pode mudar de atividade, muitos jovens de hoje, com 18 a 20 anos, terminarão suas vidas tendo exercido três ou quatro profissões diferentes, apontam alguns estudos. A formação do professor deve ser a maior preocupação do sistema educacional de uma nação. Tem de ser esmerada, cuidadosa, dedicada e extremamente profissionalizada. Um primeiro passo: selecionar nas escolas de ensino médio, os mais talentosos; segundo passo: proporcionar formação adequada à área de atuação; oferecer incentivos diferenciados; avaliar o desempenho por diversos indicadores, não apenas produção quantitativa; oferecer e exigir atualização continuada; reconhecer e premiar o mérito.

 

ESTÍMULOS – Como consultor educacional tenho encontrado muitos profissionais da educação estudando com afinco. Mas tem muita gente (e o número é muito grande) que não está preocupada com sua atualização profissional, deseja muito mais um cargo administrativo, não vê a hora de chegar a aposentadoria. Não tem método, tudo parte da escolha das pessoas e do sistema (público ou privado) que as admite. Temos hoje ferramentas aplicadas na área de Gestão de Pessoas, que possibilitam prognosticar com razoável grau de precisão e acerto, por exemplo, o potencial dessa pessoa; diagnóstico de interesses e de personalidade. A Educação tem que se valer das Ciências Humanas Aplicadas e das ferramentas de gestão que elas proporcionam

 

CERTIFICAÇÃO DE PROFESSORES – Tenho uma especialização na área de Qualidade, trabalhei em vários projetos de implantação. Ao longo do percurso, a Certificação sempre é permeável a manipulação por parte de um ou de outro interessado. Não desejo passar uma visão pessimista, mas deposito toda a credibilidade na escolha pessoal e no sistema de formação, e aqui temos os órgãos normativos, fiscalizadores, avaliadores e a própria sociedade.

 

CULTURA E FORMAÇÃO – Os dados disponíveis nos preocupam. Vivemos num mundo onde o volume de informação disponível através de diferentes mídias se multiplica a cada três meses. Quais mídias o professor acessa? Como me referi a dados, temos pesquisas que mostram que um estudante universitário se forma em três ou quatro anos tendo lido um único livro. Penso que não podemos exigir de um professor a quantidade de informações atualizadas que se exigia há trinta anos passados, quando efetivamente o professor era uma espécie de enciclopédia viva / ambulante disponível na comunidade. Essa figura é irreal hoje, em termos de informação. É desejável o resgate dos valores humanos, da ética, do respeito, da consideração. Digo que se não somos (como professores) capazes de tudo saber, afirmo que somos capazes de orientar, até de buscar juntos. Vale lembrar que a humanidade tem valores que precisam ser preservados, como por exemplo: a literatura, a arte, o teatro, a natureza, a ciência, o trabalho, a tecnologia, etc.

 

INCENTIVOS – Os países com melhor desempenho nas avaliações educacionais internacionais têm os professores mais bem formados e melhor remunerados do mundo. Dedicam-se a docência com exclusividade. Uma boa formação demanda investimento e alto.

Penso que as próprias instituições devem dedicar parte do seu orçamento a formação do professor, como forma de apoio e estímulo. Algumas editoras já dedicam uma atenção muito especial ao professor com a oferta de títulos ou gratuitamente (para avaliação e eventual adoção). Mas falta muito ainda, por exemplo, para cursos, participação em congressos.

 

FORMAÇÃO DOCENTE NO BRASIL – É um dos problemas, pelos itens já elencados: baixa remuneração, nenhum reconhecimento, baixa exigência para o acesso. Em verdade, houve um processo social / histórico de desconstrução da imagem e de desvalorização do professor. Uma sociedade que minimiza a Educação, está destinada ao fracasso, via de regra, pela manipulação na sua forma mais perniciosa que é o assistencialismo. Nossa sociedade – via suas futuras cabeças pensantes que hoje estão nas universidades – está mais preocupada com a liberação das drogas do que com a qualidade da Educação. Que podemos esperar?

 

MÁ REMUNERAÇÃO = MÁ QUALIDADE – Absolutamente verdadeiro. Note que um professor no ensino fundamental começa a carreira com um salário mínimo. O auxílio reclusão é de um salário mínimo e meio. Portanto, há uma perversidade brutal nos valores atualmente praticados em nossa sociedade. Sugiro repensar o que se entende por Educação neste país, qual o pais que desejamos, para então definir um projeto e um novo perfil de educador.

 

 

O QUE PODE SER FEITO – Escrevo esse texto no momento pré eleições municipais, é fácil constatar que todos os candidatos – incluindo aqueles que não privilegiaram nem um pouco a sua formação, que, aliás, não se exige formação nenhuma para qualquer cargo eletivo no país – em todos os níveis falam de Educação, li algumas matérias dos eventuais candidatos, sem nenhum propósito ou um mínimo de coerência. Enfim é uma constante: muito mais discurso do que ação. Falam apenas em construção, como se o problema da Educação fosse apenas a instalação física, o prédio. Eles não sabem, ninguém lhes ensinou e também não foram capazes de aprender que Educação é muito mais que isso. Reproduzo aqui uma frase admirável do jornalista Alexandre Garcia: “É preciso formar professores de excelência. E atraí-los com remuneração alta. Escola não é brincadeira. Não é passatempo. Não é depósito de criança porque os pais estão trabalhando. É o lugar mais importante de um país sério”.

Como profissional escolhi o caminho árduo da Educação, sou feliz, em pleno processo de realização. Desejo registrar que tenho poucas convicções na vida, uma delas inabalável: Se tem uma força que pode aperfeiçoar e fazer evoluir o ser humano, e consequentemente a sociedade, é a Educação.

 

LUIZ CARLOS MORENOPedagogo; Especialista em Educação; Filosofia e Recursos Humanos. Membro da Academia Ribeirão-Pretana de Educação – ARE, cadeira 17. Presidente 2010-2012. Professor no Centro Universi­tário Barão de Mauá. Consultor de Desenvolvimento Humano. e-mail: lcmoreno@uol.com.br

 

Artigo publicado na revista GESTÃO EDUCACIONAL, Humana Editorial, Dezembro 2012, Ano 08/nº 91 e 92

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