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ENEM

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Quando o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) foi criado em 1998, houve enorme repercussão entre os educadores brasileiros. Mais do que uma avaliação das condições dos estudantes ao concluir essa etapa da escolaridade, o que mais chamou a atenção foi seu formato absolutamente inovador.

Até então, os jovens estavam acostumados com avaliações caracterizadas pelo forte predomínio da memorização e conteúdos estanques, divorciados entre si e, pior ainda, da realidade. Os exames tradicionais contribuíam para reforçar uma visão conservadora, apresentando questões separadas por disciplinas, como se o mundo das ciências fosse um enorme gaveteiro.

em que a matemática e a física, por exemplo, estivessem condenadas a viver em compartimentos distintos e incomunicáveis.

Com as primeiras avaliações do ENEM pode-se incentivar a crença de que as disciplinas escolares são partes integrantes do que chamamos ciências e estão interligadas, formando um tecido rico para o aprendiz. Além disso, elas podem e devem ter conexões com o mundo real e com o cotidiano das pessoas. Somente assim, podemos entender o real e maior sentido da educação: sua capacidade de compreender, interferir e, sobretudo, alterar a realidade.

Sem exageros, os jovens foram entendendo que, em uma mesma questão, existiam elementos da história e literatura, da matemática e da geografia, da física e da biologia.Rapidamente aprenderam que poderiam responder a uma pergunta utilizando-se da habilidade da interpretação de um texto, de uma imagem, gráfico ou tabela.

O período da ousadia, no entanto, foi curto. Com o tempo, entretanto, as avaliações foram ficando cada vez mais parecidas com as provas convencionais e conservadoras. Na mesma velocidade, os pressupostos originais foram sendo esquecidos. Nesse processo de perda do encantamento e da identidade do ENEM, as autoridades criaram o absurdo do ranking das escolas, deformando o objetivo inicial de avaliar as condições de escolaridade no final do Ensino Médio.

Nesse país marcado pelos contrastes e barreiras sociais quase que intransponíveis, não diferenciaram no ranking, escolas públicas e privadas, laicas e religiosas, grandes e pequenas, aquelas que concentram a elite econômica e as instituições de ensino onde se aglomeram a juventude de baixa renda. Como se fosse simples assim, pretenderam mensurar o desempenho do trabalho de todos os principais atores educacionais. Alguns donos de escolas espertos, na ânsia de obter posição de destaque nesse ranking, criaram artifícios absolutamente inadmissíveis.

No governo Lula, subitamente, sem discussão maior com os segmentos envolvidos, pretendeu-se substituir o processo seletivo tradicional das universidades, o vestibular, pelo ENEM. Milhões de jovens foram atingidos pela promessa de que, enfim, haveria justiça e inteligência no modelo de escolha para as universidades. As públicas, pressionadas pelo MEC  que as mantém, aderiram em massa. As demais agiram com mais cautela.

Organizar um exame simultâneo para milhões de estudantes em um país continental era a tarefa que se mostrou, até agora, impossível. Na última edição foram, aproximadamente, quatro milhões e seiscentos mil estudantes distribuídos em 16 mil locais espalhados por 1800 municípios. Vazamento dos conteúdos das provas, de dados sigilosos dos candidatos, colapso do sistema de informatização do INEP (autarquia responsável pela realização do exame), erros de impressão, foram alguns sinais da desmoralização do modelo. Maior absurdo é o formato da prova: 10 horas de provas em um único final de semana para responder aos testes e fazer a prova de redação. Alguém ainda procurará racionalidade no processo de correção de 4,6 milhões de redações em apenas 2 meses. Um insulto à inteligência de todos. Detalhe: o candidato que se sentir prejudicado não pode, de acordo com os termos do edital, ter acesso a sua prova ou pedir revisão da correção.

Obviamente, queremos a democratização do ingresso nas universidades brasileiras, desejamos um processo seletivo mais justo, onde outras habilidades, além da memória, sejam priorizadas. É evidente que somos contrários às avaliações que nada contribuem para estimular a busca pelo conhecimento. Diante disso, desejamos que as autoridades públicas sejam mais democráticas e que debatam com mais responsabilidade esse momento angustiante vivido pelo jovem pré-universitário.

 

LAFAYETTE DA COSTA TOURINHO NETO

Cadeira no. 25

 

 

 

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